Bhutha shuddhi
Bhutha shuddhi: a purificação dos elementos e das emoções
(C) Copyright, João Camacho, Yôgachárya
Parte I
Bhuta shuddhi, a purificação dos elementos do corpo físico, é um dos procedimentos do nossa proposta cultural. Bhuta significa “elemento”, embora também possa ser traduzido como ser, existência, produzir ou formar. Shuddhi é purificação ou limpeza. O bhuta shuddhi possui uma dupla finalidade: não somente purifica o corpo físico denso, mas também acelera o despertar da kundalini. Os cinco elementos que constituem o corpo denso são:
|
Elemento |
Estado da natureza |
Chakra |
|
|
Akasha ou vyôma |
(Éter) |
Etéreo |
Vishuddha |
|
Vayú |
(Ar) |
Gasoso |
Anahata |
|
Agñi, tejas |
(Fogo) |
Ígneo |
Manipura |
|
Apas ou jala |
(Água) |
Aquoso |
Swadhisthána |
|
Bhur |
(Terra) |
Sólido |
Múládhara |
O bhuta shuddhi é um conjunto de técnicas que potencializam o efeito produzido pelos outros exercícios. O propósito do bhuta shuddhi é duplo: por um lado, limpam-se as nádí, os condutos do corpo energético pelos quais circula a bioenergia. Por outro, bombeia-se prána por elas. Para tanto, dois pré-requisitos são necessários: intensificar os cuidados com o corpo (alimentação, hábitos saudáveis) e limpá-lo das toxinas segregadas pelo organismo em resposta às emoções viscosas.
Como ensina o insigne Mestre DeRose <!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]-->, nesta fase:
É a etapa de purificação intensiva do corpo e dos seus canais de prána, as nádís. Na terceira parte do ády ashtánga sádhana (o anga mantra), e depois na quinta parte (o anga kriyá), já demos os primeiros passos nessa tarefa. Trata-se agora de especializar e aprofundar a purificação, não apenas com mantra, kriyá, pránáyáma, mas também com uma rígida selecção alimentar, jejuns regulares moderados e com um sistema de reeducação das emoções para que o praticante não conspurque seu corpo com os detritos tóxicos das emoções viscosas como o ódio, a inveja, o ciúme, o medo, etc. Também tratamos de regular a quantidade de exercício físico, de trabalho, de sono, de sexo e de alimentos. Há uma medida ideal para cada um desses factores.
O bhuta shuddhi fortalece e purifica as nádí, concedendo ao praticante o nádí shuddhi, a limpeza do corpo subtil, aumentando resistência física geral, aumentando a flexibilidade e activando o fogo interno. Inclui técnicas de mantra, pránáyáma, kriyá, ásana, yôganidrá, samyama, tapas e mauna. Dessas técnicas, as mais simples são as mais fortes: por isso o método que trasnmitimos é tão poderoso.
A prática diária é importantíssima, tão importante, tão essencial, que não me canso de vos repetir isso há anos, para desenvolver disciplina e força de vontade. Os kriyá, as técnicas de limpeza interna, estão indissoluvelmente ligados ao bhuta shuddhi, sendo a sua prática condição sine qua non para atingir o estado de purificação.
A prática de ásana também pode incluir-se no bhuta shuddhi: por um lado, facilita o despertar da kundaliní, tendo um efeito bem forte sobre o corpo energético, massajando e estimulando chakra e nádí. Por outro, actua sobre as glândulas endócrinas, o sistema circulatório e os órgãos internos, ao mesmo tempo em que fortalecem a musculatura e flexibilizam a coluna. Para a metodologia que ensinamos, não existe separação entre os corpos físico, subtil, emocional e mental.
A reprogramação mental e emocional do yôganidrá pode ser considerada um processo de limpeza psíquica: nele transcendemos o estado mundano da consciência, ascendendo ao turiyavashtha, o quarto estado, situado além da vigília, o sono e o sonho. A posição utilizada é o shavásana, deitado no chão, da qual cada variação possui efeitos diferentes. Na posição decúbito dorsal, o indivíduo aceita e enfrenta seus desafios, deitar decúbito frontal sugere protecção, enquanto que a posição fetal, de lado, implica retorno à situação primordial do nascimento.
Em relação ao pránáyáma, existem quatro exercícios respiratórios que podem usar-se com finalidades específicas de purificação. Eles são:
|
kapalábhati |
Respiração do sopro lento. Em algumas escolas este pránáyáma é designado por bhastriká e vice-versa. Este pránáyáma é simultaneamente um kriyá. Esta dicotomia dá-lhe uma importância fundamental. Pois pode ser utilizado para desobstruir nádí ao mesmo tempo que pranifica o praticante. Deve começar por uma inspiração completa. Em seguida por acção de contracção dos músculos abdominais, o ar é expulso de forma rápida e enérgica durante um tempo máximo de meio segundo. E em seguida deixamo-lo entrar nos pulmões, mas apenas por acção de descontracção dos músculos abdominais. E vai-se repetindo este ciclo. No início por poucas vezes. Mais tarde por algumas centenas de vezes, durante vários minutos seguidos, enquanto os músculos abdominais o suportarem. A força da expulsão do ar é importante. A expiração é ruidosa. Poderá, se o houver, sair muco. Se acontecer, deve-se fazer o exercício até expulsá-lo completamente. Torna-se muito mais vigoroso se for acompanhado de múla bandha. Faremos um pequeno intervalo, na exposição, para conversarmos mais sobre estes pránáyáma - kapálabháti e bhastriká <!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]-->. Kapálabháti é o assoar dos Yôgi. Com este exercício limpa-se o aparelho respiratório, desde o ar residual existente nos pulmões, até ao muco que se acumula nas vias respiratórias. As viscosidades são expulsas das narinas, obrigando por vezes à utilização de um lenço. Se isto acontecer, deve fazer-se kapálabháti até que não saia mais muco. Aumenta a penetração do oxigénio em todos os tecidos. Estimula a respiração e a actividade celular, induzindo a um consequente aumento da temperatura corporal. Tonifica e mantém a flexibilidade dos alvéolos pulmonares e do diafragma. Fortalece os músculos abdominais, activando a digestão e o peristaltismo intestinal. Produz “uma limpeza total do organismo se o exercício é feito durante dois ou três minutos” <!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]-->. Também age de forma intensa sobre o sistema neurovegetativo. Aumenta a capacidade de concentração e estimula as faculdades intelectuai |
|
bhástrika |
Respiração do sopro rápido. Algumas escolas designam o bhastriká por kapálabháti e vice-versa. Bhastriká, o fole. É executado com púraka e rêchaka consecutivos, rápidos, enérgicos, acompanhados de igual movimentação abdominal. A inalação e a exalação devem ser explosivas. O sádhaka deve visualizar que é o grande ferreiro, o grande demiurgo, que precisa de atiçar o fogo da caldeira na base da coluna vertebral, fogo que vai utilizar para forjar o samádhi. Os iniciantes deverão fazê-lo mais lentamente. Os mais adiantados deverão fazê-lo mais rápido e mais forte. No fim o sádhaka deverá permanecer em shúnyaka com bandha traya. «Durante a retenção em Bandha Traya, interiorizar-se em Múládhára Chakra: É ESSENCIAL.» <!--[if !supportFootnotes]-->[4]<!--[endif]--> Estimula o apetite. É eficiente no combate a inflamações da garganta e nariz. Limpa os pulmões, combatendo a asma e a bronquite. |
|
antar kúmbhaka pránáyáma |
Respiração completa com ritmo. Também designado por antara kúmbhaka. Neste exercício, acrescenta-se ao prána kriyá, a retenção da respiração e o ritmo. Como não se fazem bandha, a advertência já acima feita, em relação ao cinco segundos de duração da retenção, é válida. |
|
nádí shôdhana |
Respiração alternada sem ritmo. Também designado por nádí shôdhana pránáyáma ou vamakrama. O sádhaka deve tapar a narina direita. Inspira pela esquerda. Expira pela direita, tapando a esquerda. Inspira pela direita, expira pela esquerda. E assim sucessivamente. Devemos reter a regra geral neste pránáyáma: muda-se de narina sempre que os pulmões estiverem cheios. Este pránáyáma visa purificar as nádí e regularizar a polaridade no nosso corpo. Consegue-se que quantidade igual de ar passe por cada narina. |
Samyama, a técnica tríplice de concentração (dháraná), meditação (dhyána) e supraconsciência (samádhi) conduz-nos ao objectivo do Yôga, o samádhi
Tapas <!--[if !supportFootnotes]-->[5]<!--[endif]--> é ascese, disciplina, auto-superação ou esforço sobre si próprio. Consiste em transcender pela força de vontade as limitações humanas naturais, fazendo jejum, mauna (jejum verbal) ou enfrentando certas provações que o próprio praticante se impõe, mas que não são necessariamente fisiológicas. É uma das práticas mais arcaicas do Yôga. Provém da raiz tap que significava calor.
Tanto o Rig Vêda como as tradições do xamanismo falam do “voo” do iniciado, vide por todos Mircea Eliade. No Rig Vêda o “voo” referido é um dos poderes (siddhi) que despertam através da prática de tapas, que é uma das armas mais importantes no processo de reeducação comportamental, na alteração dos samskara.
Existem na Índia ascetas (sadhus) que se submetem a práticas extremas de tapas, como:
|
urdhvabahu |
que consiste em manter o braço direito elevado durante anos |
|
pañchagni |
(“cinco fogos”: consiste em meditar durante oito anos entre quatro fogueiras, sendo o quinto fogo o Sol, mantendo no lugar uma sensação térmica superior aos 60o C |
|
êkapada |
ficar parado sobre uma perna só durante anos |
Claro que não pretendemos no nosso movimento cultural fazer esse tipo de práticas, até porque sabemos que o tapas superior a que nos devemos dedicar é o aprimoramento do carácter. Fica registado aqui a título de breve esboço de um dos aspectos do rico folclore do Yôga, mas existem outras formas de fazer tapas, muito mais subtis porém não menos eficientes.
Porém, assim como há poderes a descobrir-se no tapas, também há o perigo do exagero. Este deve ser evitado pois a liberação não se consegue apenas untando-se o corpo com cinzas, alimentando-se com casca de árvores e água, expondo-se ao frio e ao calor e fazendo coisas do estilo. Os burros e outros animais vivem completamente nus: acaso são Yôgis por isso? Não; por tanto, obtenha o verdadeiro conhecimento e evite o falatório desnecessário.<!--[if !supportFootnotes]-->[6]<!--[endif]-->
As práticas de tapas mais frequentes e recomendáveis incluem jejum, mauna e autosuperação em todas as circunstâncias da vida.
Cada técnica trabalha sobre uma área definida do corpo, purificando-o interna e externamente, promovendo purificação, indispensável para o progresso na prática. Esse estado de purificação permitirá que ao prána circular livremente.
Aspectos práticos do bhuta shuddhi
Fazer bhuta shuddhi implica um esforço no sentido de alcançar a perfeição, através dos nossos actos [conheço um mestre, um grande mestre, que a isto, diz esforçar-se sempre, mas ter a consciência de falhar miseravelmente, todos os dias] mantendo sempre uma atitude positiva e aberta, evitando fechar-nos em fórmulas rígidas. O importante é possuir mais disposição interior para viver e trabalhar, para nos auto-superarmos, aproveitando as oportunidades que a vida nos dá. Pois esta ensina-nos sempre.
<!--[endif]-->
<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> DeRose, Faça Yôga Antes que Você Precise, p. 83.
<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]--> Acerca dos poderosos efeitos fisiológicos de kapálabháti e bhástrika, aconselhamos a leitura da obra de Van Lysebeth, Pránáyáma - A dinâmica da respiração. Esgotada que está à vários anos a edição portuguesa, poderá encontrar esta obra no mercado nacional em francês e em espanhol.
<!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]--> Van Lysebeth, idem, pg. 210.
<!--[if !supportFootnotes]-->[4]<!--[endif]--> Van Lysebeth, Pránáyáma, a dinâmica da respiração, pg. 219.
<!--[if !supportFootnotes]-->[5]<!--[endif]--> Da raiz tap, produzir intenso calor, tornar-se ardente.
<!--[if !supportFootnotes]-->[6]<!--[endif]--> Kularnava Tantra.

