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O caminho iniciático e a democraticidade do conhecimento científico

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O caminho iniciático e a democraticidade do conhecimento científico

Posted by João Camacho at February 01. 2009

O caminho iniciático e a democraticidade do conhecimento científico

 

 

                        Julius Evola, no seu livro Le Yôga Tantrique, refere que a ciência e a técnica são democráticas. Têm uma estrutura, intrínseca, de organização e de transmissão do conhecimento democrática. Qualquer um, medianamente inteligente, consegue ir à Universidade e fazer seus os conhecimentos actuais. Uma pistola produz o mesmo efeito nas mãos de um idiota, de um soldado, de um polícia ou de um chefe de estado. E a qualquer um deles é possível transportá-los de avião, no mesmo número de horas.. Mas assim já não é com o conhecimento iniciático. No âmbito da ciência estamos no plano ontológico do ser humano. E aí, os princípios são os da igual dignidade. A transcendência da condição humana, objectivo das disciplinas da auto-superação, como a Nossa Cultura, conduz o sádhaka a um estado existencial e ontológico superior, consequência da superioridade de uma evolução que leva a que o yôgin seja um mutante, por comparação com o resto da humanidade. Ora, o calor, o despertamento da kundaliní, os siddhi que, com isso. se manifestam, são pessoais, intransmissíveis e não democratizáveis. Esta profunda diferença, é a divisão fundamental entre a tradição e a modernidade. Pois a diferença real entre os seres é a base de um conhecimento e dum poder inalienáveis, não comunicáveis, logo exclusivos e esotéricos pela sua própria natureza e não por artifício, pois trata-se de um culminar de um desenvolvimento excepcional, que não se pode partilhar com toda a sociedade.

                        Nesta sequência, René Guenón, o grande orientalista francês da primeira metade do séc. XX, estabeleceu, para classificar uma fraternidade, um círculo interno, como detentora de autênticos processos iniciáticos, três características que se devem observar:

 

1-      Necessidade de uma genuína qualificação interna dos seus membros

2-      Necessidade de uma transmissão do saber esotérico e de auto-aperfeiçoamento interior de cada um dos membros

3-      Necessidade de actualização activa subsequente, pelo esforço individual

 

                        Tais exigências devem-se ao facto de a iniciação não ser um mero ritual de passagem que celebra a aceitação numa fraternidade. A iniciação é muito mais do que isso. É e pretende ser, um processo transformativo, de mutação, de auto-superação, que começa com um influxo energético, polarizado, pelo Mestre, proveniente dos domínios transcendentes e exercendo os seus efeitos ao nível dos corpos subtis. Porém, aquele que se envolve no processo iniciatório, deve ultrapassar-se também em provas físicas (outra razão para a coreografia de ásana) e ser corajoso.

                        A iniciação foi sempre reservada a alguns e nunca aberta a toda a gente. O impulso iniciatório transmuta o seu humano, se este não o detiver. Uma tradição iniciática usa tudo como elemento de transformação: o corpo; os desejos; as pulsões; a imaginação; a clarividência; a emoção; a intuição. Pois o processo só pode iniciar-se e ter continuidade de fora para dentro, do Mestre para o discípulo.

 

João Camacho

Sou irmão de dragões e companheiro de corujas.

 

Re: O caminho iniciático e a democraticidade do conhecimento científico

Posted by Júlio Silva at March 09. 2009

Que interessante esta relação que faz Mestre, arrisco-me a escrever, que poucos são os que compreendem estas ideias da não democraticidade do processo iniciático.

Até porque comprar um bilhete e ir ver uma Ópera pelo menos uma vez na vida quase todos conseguem fazê-lo. Mas estar preparados e verdadeiramente deixarem-se transformar, ou terem capacidade de se transformarem por essa Ópera, não está ao alcance de todos.

Alguns ficarão com tiques de artistas, outros de críticos de Ópera, outros de cantores, outros de gabarem-se que conseguem comprar o bilhete e verem várias Óperas por mês, outros de se lamentarem o resto da vida que não conseguem ter dinheiro para ir à Ópera, e poucos os que se dedicam a procurar um Mestre dessas artes, e deixar que o mesmo faça deles alguém nestas lides, com trabalho, árduo, um trabalho excepcional, dedicado, incondicional, natural e não artificial.

 

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